Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Somos cegos - II parte

Meio-dia. O sol resplandece fortemente os seus raios. A praça, apinhada de gente, nao convidava a um passeio, tão difícil se tornava o andamento por ali. Pombos esvoaçavam, para aterrar em algum local onde se encontrasse comida.

E, com efeito, a um determinado canto, um grupo de pombos se podia encontrar, pois recebiam comida de alguém... Era um mendigo que ali se situava, e que tal como na sua condição de desejo de ser ajudado, ajudava aqueles bichos que por todo o lado procuravam algo para matar a fome. Era um indivíduo já idoso, de mísero aspecto...muito sujo, roupas esfarrapadas, barba grande e negra como as barbas de carvoeiro. Devia ter sido um belo homem anteriormente ao seu estado actual. Cortava pacientemente pedaços de pão e oferecia-os aos pombos que o rodeavam. Parecia ter extremo prazer em oferecer comida àquelas pequenas criaturas  e pensei "que prazer não teria se lhe matassem a fome"...

Aproximei-me. Muita gente passava, indiferente àquele homem, que ansiava por um prato de sopa. Perguntei-lhe como se chamava. Ele olhou-me; olhos tristes e ao mesmo tempo belos o caracterizaram. Fui com ele até um café humilde onde saciou a fome, como se de um refugiado se tratasse. A verdade é que em tempos tinha sido um soldado. Era um ex-combatente que não tinha concretizados seus desejos. Ainda não recebera o dinheiro que há muito lhe deviam pelos serviços prestados à pátria e não tivera ao longo da sua vida um emprego que lhe garantisse boa reforma; a família não o ajudava...entregara-se ao alcool e as ruas passaram a ser a sua companhia.

Durante duas horas conversámos; aprendi muito com as suas palavras... e depois, de cara melancólica e enrugada, o mendigo lá voltou para a sua triste e solitária vida, desejando-me sorte, mais sorte que a que tivera...

Nunca mais o vi mas ali encontrei um exemplo do que hoje se pode ter tudo e amanha se pode não ter nada.

publicado por melinha às 09:23
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De Vera a 13 de Outubro de 2006 às 14:34
O teu texto emocionou-me a sério. E mais uma vez se comprova que tu és um ser humano maravilhoso, que eu tenho muito orgulho de conhecer (mesmo que seja desta forma)!
Um beijo enorme!
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